sábado, 27 de setembro de 2008

Pobre Fernão de Magalhães!

Fernão de Magalhães foi um português determinado, nascido em Trás-os-Montes, na segunda metade do século XV, que preparava as suas estratégias “como passos de dança”. “Dominava, como poucos, as técnicas de navegação. Isso levou-o a projectar uma viagem espantosa, que respondeu à grande questão da época: saber se a terra era esférica ou não”.
Participou na conquista de Malaca sob o comando de Afonso de Albuquerque, em 1513, e em 1519 inicia a primeira viagem de circum-navegação. Chegou à baía de Guanabara, alcançou a foz do Rio de Prata, passou na baía de S. Julião, desembocou no Pacífico, descobriu a ilha dos Ladrões e o arquipélago das Filipinas, onde morreu em combate.

Um português destes não merecia a “fantochada” que foi feita com os computadores, aos quais foi dado o seu nome, e que uma dúzia de governantes andou a distribuir por esse país fora.

Vamos primeiro às cenas que vimos e às que não vimos na televisão. O que vimos foi um alarido tal que só se justificava se o Fernão de Magalhães tivesse acabado de concluir a viagem de circum-navegação agora. Vimos um governo inteiro fechar “o tasco” para se passear pelo país fora numa acção de total e absoluta inutilidade. Os Directores Regionais, ou os próprios Conselhos Executivos das escolas podê-lo-iam ter feito.
Agora o que não vimos. Na escola de S. Mamede de Infesta, além do primeiro-ministro, estavam os operadores das redes móveis. Tudo acabado, faltava desmontar as tendas. Os operadores foram informados que tinham de esperar que o PM falasse e ele só falava às 13 h para entrar em directo nos telejornais. A P. telefonou-me indignada. Queria vir-se embora, precisava de almoçar, queria continuar o seu dia de trabalho e estava impedida de o fazer por causa da propaganda eleitoral do PS. A isto eu chamo falta de respeito pelos cidadãos que trabalham e que, ainda, não são obrigados a colaborar em festas eleitoralistas.

Agora falemos dos Magalhães computadores. Para que querem as crianças do primeiro ciclo um computador pessoal? Para jogar. Será isso tão educativo que mereça este investimento e este despropósito? Mais. Todas essas crianças já têm acesso aos computadores da escola e muitos deles têm-no em casa. Já estive, vários anos a dirigir a sala de estudo da escola onde lecciono. Contavam-se pelos dedos das mãos os alunos que recorriam aos computadores para trabalhar. Os jogos e a página do Futebol Clube do Porto eram a procura maioritária.

Enquanto se oferecem computadores a eito, na minha Área Disciplinar somos 12 professores e temos 1 (um) projector multimédia. É ver quem chega primeiro e o apanha. Que me interessa ter no meu portátil uma simulação, um programa, uma página interessantíssimas para os alunos, se chego à escola e não o posso mostrar porque outro(a) colega já “arrebanhou” o projector multimédia?


Pergunto eu. Não seria muito mais útil investir este balúrdio que foi gasto, do propagandeado plano tecnológico, no apetrechamento das escolas? Computadores têm as escolas em número mais que suficiente para todos os alunos que o não têm em casa.

Mas, para o cidadão ignorante (a maioria), apetrechar as escolas não lhes entra pela casa dentro. Não vêem como uma mais-valia. E os pais correspondem a muitos, muitos votos.
Haja paciência para tanta ignorância de uns e tanta hipocrisia dos outros.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sarcasmo

Vi e ouvi uma pequena parte do debate na Assembleia da República.

Estou a acabar de ler um livro de Julian Barnes que, num dos contos de "A mesa limão", diz que o sarcasmo é uma fraqueza moral. Foi o que eu vi no sorriso do nosso primeiro...

sábado, 20 de setembro de 2008

Fica o aviso

Após oito dias do início das aulas, continuam as visitas de altas figuras do Governo às escolas numa pura encenação de propaganda eleitoral. Quem assim age está obsessivamente empenhado em tentar compensar reformas erradas com uma estudada boa figura perante o país, através dos órgãos de comunicação social.

Sou adepta confessa da valorização do mérito. Mas do mérito mesmo. Não considero digno de mérito "ter um olho em terra de cegos". As escolas têm o seu “Quadro de Honra” e há Instituições como os Lions ou os Rotários que atribuem prémios aos melhores alunos das escolas da sua área. Absolutamente de acordo desde que as escolas não atribuam mérito a todos que têm uma média superior a um valor estipulado. Isso é tirar mérito ao mérito.

Institucionalizar o “Dia do Diploma” já me parece exagero. Os alunos que têm possibilidade de frequentar o 12º ano, não fazem mais do que a sua obrigação em conclui-lo. Fazem aquilo que devem fazer – trabalham. Não têm nisso mérito algum. Daí que considere fantochada, a entrega pelo Primeiro-ministro dos diplomas de fim de ciclo a tantos jovens. Com tantos problemas com os quais o país se debate, pensava eu que o PM teria mais que fazer do que andar a calcorrear o país, de escola em escola, acompanhando a Ministra da Educação.

A “atribuição dos Prémios de Mérito Ministério da Educação, criados com o objectivo de distinguir, em cada escola, o melhor aluno dos cursos científico-humanísticos e o melhor aluno dos cursos profissionais, tecnológicos ou do ensino artístico especializado” serviu para dar ao Governo mais uns largos minutos de antena. Pura campanha eleitoral. (Sobre estes prémios ainda me debruçarei numa próxima oportunidade já que não é tão linear como consta na página do Ministério).Pura propaganda eleitoral foi, também,a entrega de livros aos mais pequenos. Areia que atiram para os olhos dos portugueses que ainda se deixam levar por estas coisas. Uma jornalista de um canal televisivo referia a pertinência da entrega de livros num país onde um em cada dez portugueses são analfabetos.

Não tenho a pretensão de fazer ver o que se passa nas escolas a quem não vive o dia a dia de uma delas. Já desisti. Os fazedores de opinião (que nunca estiveram ligados ao ensino não superior mas são pagos para falar do que não sabem) já “construíram” a cabeça de muitos portugueses. Mas, com 36 anos de sala de aula, sinto-me no dever e com o direito de deixar um aviso. Este Governo sempre disse que era urgente qualificar os portugueses, nunca disse que era preciso prepará-los para algo. Portanto, está a cumprir esta promessa (deve ser a única). Está a qualificar aos milhares. Veja-se como esta senhora fez 4 anos em cerca de 25 horas.

Deixem continuar estas “reformas” que daqui por uma dezena de anos teremos 8 em cada 10 cidadãos analfabetos... mas qualificados. Os 2% que retirei referem-se aos que têm famílias com nível cultural e económico que lhes permite proporcionar aos seus filhos um ensino de qualidade e exigência.


Quem viver verá.
Eu espero estar cá para assistir ao povo a dizer “o rei vai nu”.
Fica o aviso.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

AS ACND

Tenho na minha mão a cópia do ofício que seguiu ontem para a Caixa Geral de Aposentações e que diz:"A pedido da subscritora acima referenciada, somos a enviar requerimento de aposentação."

Não queria acabar assim a minha carreira. Dediquei-me demasiado e demasiados anos para me ver forçada a “fugir” da profissão que escolhi e da qual gostei muito. Mas esta equipa governativa não me dá alternativa. Transformaram-me em burocrata e o tempo que me dão para ser professora é insuficiente para exercer a profissão com a qualidade com que me orgulho de sempre o ter feito. Os fazedores de opinião, tipo Miguel Sousa Tavares, Emídio Rangel, Manuel Ribeiro e tantos outros trataram-me como a mais vil das criaturas. A Confederação Nacional das Associações de Pais, na voz do senhor Albino Almeida, também me ofendeu variadas vezes. A Ministra chamou-me publicamente professorazeca e foi o menor dos insultos. Gente desta não merece o que eu fiz pelo país que é de todos. Ficam eles. Eu vou. Atingi a exaustão.
Resta-me a consolação de ter ajudado a formar verdadeiros cidadãos que, depois de décadas, ainda me contactam e querem a minha assinatura nas fitas da sua pasta. Por eles, e apenas por eles, não dou o tempo por perdido.

Hoje vou ter uma reunião de professores que leccionar a Área de Projecto. Eu tenho essa área curricular não disciplinar (ACND) numa das turmas do oitavo ano.
Para a reunião foram-me enviados, para além da convocatória, 14 (catorze) documentos. A ver:
Grelha de Observação, Grelha de Avaliação, Ficha de Avaliação de Grupo, Ficha de Auto-Avaliação, Ficha de Avaliação Intermédia, Planificação das disciplinas intervenientes, Planificação Geral, Planificação de Grupo, Temas sugeridos, Projecto do Clube de Protecção civil do meu estabelecimento de ensino, Documentos com todas as etapas do trabalho de projecto, Despacho nº 19308 de 21 de Julho de 2008, Nos trilhos da Área de Projecto (documento com 14 páginas) e a lista dos docentes que irão leccionar a dita ACND.

Tudo isto me é enviado por mail, pelo que sou eu que imprimo toda esta “tralha” com impressora, papel e tinta que pago do meu bolso e que continuarei a pagar cada vez que me pedirem grelhas ou fichas preenchidas.

Mas eu sou professora da disciplina de Ciências Físico-Químicas, uma Área Curricular Disciplinar (ACD). Para esta disciplina eu tenho aulas para preparar, planificação anual e planificação para os encarregados de educação, grelhas para correcção de testes, grelhas para correcção de fichas de trabalho, grelhas para a avaliação sistemática na sala de aula, grelhas de observação para as aulas práticas e sei lá que mais. Ou bem que dou aulas como deve ser ou bem que preencho papelada.

Para terminar quero deixar aqui a lista das áreas curriculares, disciplinares ou não, que esta turma de miúdos do oitavo ano tem. Língua Portuguesa, Inglês, Francês, História, Geografia, Matemática, Ciências Naturais, Ciências Físico-Químicas, Educação Visual, Expressão Artística (um semestre), Educação Tecnológica (um semestre), Educação Física, PAM (Plano de Acção da Matemática), Formação Cívica, Estudo Acompanhado, Área de Projecto e Educação Moral e Religiosa Católica (facultativa). Contem-nas… eu vou para a reunião.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Que seria de nós sem o simplex?

Tenho um casal amigo que teve um jovem familiar a estudar na Dinamarca. Estiveram lá algumas vezes e um dia disseram-me: “Nunca vás à Dinamarca. Certinha, honesta, metódica e arrumada como és, de certeza que não regressas”. Vem isto a propósito de um episódio que vivi há minutos.
Fui aos serviços administrativos da minha escola entregar um documento necessário para completar o processo do pedido da reforma. Por lei podia pedi-la no dia 14 de Setembro. Como calha num domingo, seria espectável que o processo seguisse na segunda-feira, dia 15. Seria se eu estivesse na Dinamarca... O impresso que acompanha o processo tem que ser preenchido on-line. Depois de assinado por quem de direito, é anexado ao processo e enviado à Caixa Geral de Aposentações.
Mas o simplex tem coisas que nem ao diabo lembram. O impresso não aceita, no preenchimento on-line, a data do dia mas apenas a da véspera. Sendo assim, não pode ser preenchido no dia 15 porque a véspera é domingo e o computador não aceita. Terá de ser preenchido no dia 16 para figurar a data de 15.
Tudo isto num país onde, segundo li, o nosso primeiro se “licenciou” num domingo.
Neste país de filhos e enteados, os filhos são cada vez mais filhos e os enteados são cada vez mais enteados.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Roubar legalmente

Apresentei-me hoje ao serviço após as férias a que a lei me dá direito. Mas não pensem que chego ao serviço e começo a trabalhar. Não. Tenho de pagar para recomeçar o meu serviço após as férias. Sou obrigada a comprar, sem recibo, um impresso (cinco cêntimos, paguei hoje), do Ministério da Educação, que preencho. Só após a entrega desse impresso preenchido, eu estou efectivamente ao serviço.

Todos os anos é isto. Pago para ir trabalhar. E pago porque uma lei estúpida a tal me obriga. Mas pago sob protesto. E se tiver dois períodos de férias, são dois os impressos que compro, sem recibo.

Acho inaceitável ter de pagar para retomar o serviço depois das férias ou de um atestado médico. Quanto aos atestados, os que entreguei numa vida inteira de trabalho, não ultrapassaram a meia dúzia. Mas férias, gozo-as todos os anos.

A quantia em causa é insignificante mas o princípio, francamente, acho inadmissível. Tudo serve para nos roubarem dinheiro cujo destino nenhum de nós conhece pelo que temos o direito de fazer as nossas suposições. E, se multiplicarmos os 50 cêntimos por milhares de professores todos os anos, já dá uma quantia bastante razoável.

Será que os ministros e afins também compram um impresso para retomar o serviço?
É o país que temos. O Governo não aparece encapuçado, não vem armado mas rouba da mesma maneira. Oferece a si mesmo as leis que lhe permitem roubar legalmente.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Os pequenos déspotas

Em cada ano lectivo que começa, e está mais um a começar, a minha desmotivação é maior. Sinto-me cada vez mais sem chão nesta sociedade onde o desmoronar de valores chegou ao limite. A instrução que deveria ser dada na escola não faz sentido sem antes ter havido a educação que pertence aos pais e à sociedade. Porque resumir educação a instrução é extremamente limitativo.

Que valores transmite esta sociedade às crianças e aos jovens? Os jovens nascem e crescem numa sociedade onde grassa a mediocridade. Onde o sucesso não está associado ao trabalho. Onde todos se sentem cheios de direitos mas muito poucos olham para os seus deveres. Onde a exigência é uma palavra vã. Onde não compensa ser cumpridor. Onde quem não cumpre, se gaba de o não fazer. Onde o crime compensa desde o atestado médico falso ou da fuga aos impostos à irresponsabilidade dos políticos. Os exemplos que as crianças e os jovens vêem à sua volta são lamentáveis e não são minimamente educativos.


Ouvimos os empregadores queixarem-se da falta de preparação dos recém licenciados. Os professores do superior sacodem a culpa para os do secundário. Os do secundário para os do básico. Os do básico para os do primeiro ciclo. E, possivelmente, estes para os pais. Todos têm razão e todos fazem parte do problema e da solução.


O que se tem investido na educação nos últimos 30 anos não tem resultado. Mudar programas e currículos não tem sido mais do que desperdiçar dinheiros públicos. É preciso mudar pessoas. Professores, pais, alunos e políticos. Depois do 25 de Abril, assumiu-se que tudo traumatizava as crianças e os jovens. Em casa e na escola. Passaram a ser tratados como uns seres esquisitos susceptíveis a traumas pela mais pequena coisa. Nada lhes pode ser exigido mas eles podem exigir tudo. A palavra não deixou de fazer parte do vocabulário dos pais. Aqueles que ainda ousam pronunciar essa palavra, rapidamente a transformam num nim e depois num sim ou num silêncio permissivo. Quem manda em casa são os filhos. Os pequenos déspotas. Não se lhes ensina que há tempos de trabalho e tempos de lazer. Tudo para eles tem que ser a brincar. As novas pedagogias assim o determinam. As aulas não deviam ser tempos de lazer mas momentos de trabalho. Trabalho sério. A geração do pós 25 de Abril não aprendeu nem conteúdos programáticos nem a mais elementar cultura geral. A geração que hoje anda na casa dos trintas. Geração dos novos pais, dos novos professores, dos novos políticos.
Os portugueses não dão valor à aprendizagem. Toda e qualquer aprendizagem. As estatísticas mostram que metade dos portugueses não quer qualquer formação ao longo da vida. As crianças crescem a ver e viver isso. Crescem também a não dar valor a nada. Tudo o que têm é-lhes dado. Aparece. Sem mais. Quando chegam à escola querem uma aprovação ou uma determinada avaliação sem terem feito o esforço necessário para a conquistar. Em casa têm a televisão, os DVDs, as playstations a que recorrem quando lhes apetece sem qualquer limitação ou regra. Não são habituados, desde pequeninos a ter hábitos de disciplina, de esforço, de trabalho. Sem uma educação exigente não se formam cidadãos competentes. E com cidadãos incompetentes não pode haver uma educação exigente. Estamos num círculo vicioso.


Quando eu era miúda, havia uma prenda no Natal. Uma. À qual se dava um valor incomensurável. Durante meses o brinquedo era explorado até à exaustão. Hoje as crianças têm tantos brinquedos que se limitam a rasgar o papel de embrulho e pôr para o lado para rasgar o papel da próxima que voltam a pôr para o lado.


Comprava-se uma pasta de couro que durava toda a primária. Hoje têm – exigem – uma mochila, no mínimo, por cada ano escolar. E todo o material escolar tem que ser de uma determinada marca, mais cara evidentemente. Os portugueses não têm a noção das prioridades. Desde o mais humilde cidadão ao mais conceituado membro do Governo. Os pais deviam explicar às crianças, desde pequeninas, que se tem o que é necessário e não o que se quer.

Tantas vezes fico estupefacta ao ver a maneira como as crianças e os jovens tratam os pais. Não os respeitam possivelmente porque eles não lhes incutiram a noção do respeito pelos outros. Como não lhes incutem o prazer pelo saber. A grande maioria dos jovens não tem interesse pelo saber. Não manifesta qualquer curiosidade intelectual. Quer apenas passar. Querer esse que é partilhado pelos pais.

Para não ficarem comprometidas as gerações futuras era necessário agir já. Exigindo de todos. Todos mesmo.

(Adaptação de uma crónica publicada em Setembro de 2004)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A ida à urgência

Felizmente a minha saúde tem-me poupado a idas às urgências dos hospitais públicos. São locais que me deixam em pânico essencialmente pela desumanização que sei que vou encontrar como já encontrei quando tive uma filha internada com uma gravidez de risco que, depois de muitos maus momentos, acabou bem. Ontem lá tive que ir à urgência do hospital da minha residência. O tempo de espera até à chamada para a triagem foi bastante razoável. Às 11:39 h, com uma pulseira verde, lá fui enviada para outra sala de espera onde estava este enorme quadro na parede.
Como não estava muita gente (e eu sou inocente nestas coisas, felizmente) pensei que os 120 minutos de espera eram um exagero. Entretanto começaram a entrar pulseiras amarelas umas atrás das outras. Lá passavam à frente, chamados por vozes brasileiras e espanholas. E eu a vê-las passar. O ar condicionado estava fortíssimo e eu já tiritava esticando, em vão, as mangas curtas da camisa. Os 120 minutos passaram e resolvi telefonar a uma das filhas para me levar lá um casaco quente, um livro para ajudar a passar o tempo, uma garrafa de algo que se bebesse e umas bolachas para não cair redonda de frio e fome. Lá vesti o casaco de lã, bem quente, e alimentei minimamente o físico. Às 17 h, a médica brasileira acabou por chamar o meu nome, fez o diagnóstico, medicou-me logo e mandou-me embora com uma receita para aviar. Às 17:45 h voltei, finalmente, a ver a luz do dia. Conclui, então, que “tempo alvo” significa “tempo mínimo”. Estamos sempre a aprender.

Já não temos médicos portugueses para nos atenderem nas urgências. Estamos agora e pagar o resultado da contínua cedência à classe profissional que mais lutou pelo seu feudo. E que sempre o conseguiu. A contínua limitação das entradas para medicina, tinha que ter o seu preço e cá estamos nós a pagá-lo.
Começou a aumentar a procura da língua espanhola para os nossos jovens irem tirar o curso de medicina em Espanha. E os médicos portugueses têm os seus postos nos hospitais públicos em part-time e os seus lucros chorudos nos consultórios no outro meio tempo. A classe médica foi sempre muitíssimo favorecida. É a única que tem o seu emprego garantido no final do curso e a que tem aumento de ordenado se optar por trabalhar em regime de exclusividade. Algo que foi muitíssimo útil (não sei ainda assim é) para passar uma vida inteira a trabalhar no público e no privado e, a meia dúzia de anos do fim da carreira, pedir e exclusividade para garantir uma maior reforma.


Em 2004, a Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior sugeriu que o acesso a todos os cursos de Medicina e Medicina Dentária públicos fosse sujeito a uma prova nacional de acesso cujo peso na nota de candidatura ao ensino superior será de 50%. Depois de testada essa ideia foi, pura e simplesmente abandonada. Perguntei a um aluno meu que estava em medicina (depois de ter concluído o curso de enfermagem) o que pensava dessa prova “Concordo e acho que uma prova como essa devia existir para todos os cursos. Era uma garantia que entravam os melhores para a área específica a que se candidatavam. No entanto na experiência feita, a média nacional andou à volta de 7. Por uma questão de imagem não querem implementá-la. A média de acesso a Medicina passava a ser mais baixa do que muitos outros cursos. Eu acho que para o acesso a cursos da área da saúde era necessário, além de uma prova que testasse conhecimentos, a realização de provas, isentas e transparentes, que avaliassem as qualidades humanas do candidato. Não nos podemos esquecer que nestes cursos trabalhamos com pessoas. Pessoas que, ainda por cima, estão fragilizadas. É a saúde das pessoas que está em jogo.” Que bom seria se houvesse muitos médicos a pensar assim!

Os médicos são imprescindíveis mas Deus nos livre de precisar deles.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Os milagreiros

Maria de Lurdes Rodrigues conseguiu o milagre fácil de transformar alunos que nada sabem de Matemática, em génios matemáticos. Mandou elaborar provas que até os mais ignorantes conseguissem fazer. Foi o milagre da multiplicação das avaliações.

Agora é a vez de José Sócrates fazer o seu milagre.
“O primeiro-ministro acredita que o actual Governo vai conseguir concluir a promessa de criar 150 mil novos postos de trabalho até ao final do mandato, tendo em conta que desde Março de 2005 até agora houve criação líquida de 133 mil empregos, afirmou hoje José Sócrates, nas primeiras declarações após o regresso de férias.” – escreve o Público.

Detesto que me tomem por parva e esta rentrée do primeiro-ministro vai nesse sentido. Todos sabemos que o desemprego está muito maior do que quando este Governo tomou posse. Fábricas a fechar ou a despedir pessoal são aos montes. Licenciados nas caixas dos hipermercados, a conduzir táxis, … são inúmeros. E não vale a pena continuar porque todos os que não fazem parte do Governo conhecem a realidade do país.

Ou os postos de trabalho são "líquidos" (como diz a notícia) e escorregam pelos dedos ou o milagre é tão simples quanto isto: se eu despedir 40 trabalhadores e arranjar emprego para 30, consegui criar 30 postos de trabalho.

Valham-nos os Santos milagrosos a sério!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Até breve

Estarei ausente uns dias.
Boas férias ou bom trabalho, conforme for o caso.

O jornalismo que temos

Ontem assistimos pelas televisões a uma história de terror ao vivo. Dois criminosos mantiveram como reféns, durante horas e horas, dois portugueses que estavam no seu posto de trabalho. Uma situação perfeitamente inaceitável que foi, a meu ver, muito bem gerida pela polícia. Felizmente acabou com os inocentes a salvo.
Mas não quero falar do caso. Apenas lamentar a maneira como as televisões acompanharam o caso. Horas e horas de emissão. Repetição exaustiva das mesmas informações. Descrição pormenorizada de pormenores sem interesse absolutamente nenhum. A cor das luvas, do calçado, sei lá... dos assaltantes! Entre frases o irritante ammm ammm para entreter que o texto não dá para mais de dois minutos. Um voyerismo bacoco. Lamentável.


Lembrei-me de um artigo com que me deliciei em 2004 e que não resisto a deixar aqui. Com um humor delicioso, Joaquim Fidalgo, fala-nos de um jornal que, por acaso era da TVI, mas podia ser de qualquer outra estação televisiva.

Que É do Terço?...

O caso é sério: alguém roubou o terço da santinha de Balazar. Exactamente. O terço. Não um terço qualquer. O terço da santinha. Da santinha de Balazar. Roubado, o terço. Surripiado. Subtraído. Levado. De Balazar. Da casa da santinha, da sua própria casa. Por estes dias, talvez num domingo.
O caso é sério, já se vê. Tão sério que chegou ao Jornal Nacional da TVI, como podia não ter chegado?..., ao principal noticiário do dia, ao telejornal de maior audiência, no período de maior audiência, no "prime time", que é como se chama àquela meia dúzia de horas em que podemos assistir a uma telenovela, depois a outra telenovela, depois a uma série de pequenas telenovelas (sim, há quem lhe chame "Jornal Nacional", mas isso é do hábito...), depois a outra telenovela e depois a outra telenovela. E chega, que já passa da meia-noite, acabou o "prime time", é altura de dar um filme qualquer, senão a gente nunca mais vai dormir.
Mas o terço, então. É. Roubaram-no. O terço da santinha de Balazar. Não foi da santinha da Ladeira, não senhor. Nem da santinha de Arcozelo. Foi mesmo o terço da santinha de Balazar. O autêntico. O único. O dela. Eu sei, porque a TVI contou-me tudo tintim por tintim. No Jornal Nacional. Não foi a primeira notícia do dia (e por que não?...), mas também não foi a última, sim, que eu bem sei, o dito telejornal começou às oito e ainda não eram nove quando deu a reportagem do terço roubado, portanto ainda as notícias iam a meio, elas que agora, na TVI, vão sempre além das nove e meia, chegam quase às dez, às vezes até atrasam a telenovela seguinte, mas paciência, os senhores não têm culpa, acontece sempre tanta coisa todos os dias, tanto terço roubado e assim, tanto acidente na estrada, tanto pai que bate ao filho e tanta filha que bate à mãe, tanta casa sem água e tanta rua sem passeio, tanta abóbora de dez quilos e tanto peixe sem espinhas, sei lá, o ror de coisas que acontecem cá pela terra e que é preciso noticiar no Jornal Nacional, e isto para não falar do que acontece lá fora, sim, que o mundo lá fora também interessa, não é só por cá que os filhos batem nos pais e as mães batem nas filhas, não, coisas dessas acontecem em todo o mundo e é preciso noticiar.
Mas o terço, o terço, o terço é que não me sai da cabeça. Roubaram-no. O terço da santinha. Da santinha de Balazar. Eu vi tudo, foi lá o repórter e contou, e mostrou, e entrevistou, e fez voto de que tudo se resolva em breve, que o ladrão tenha um rebate de consciência e lá vá devolver o terço, oxalá, ele que deve andar com remorsos porque "a santinha sabe quem foi", lá dizia uma senhora, "a santinha vê tudo", é quase como nós a ver a TVI, também vemos tudo, dentro e fora das casas, dentro e fora da vida da gente, até vemos o terço, não, o terço não vimos, mas só porque o roubaram, essa é que é essa. Mas havemos de o ver, o terço, quando ele voltar. Eu, por mim, estou à espera. E, como eu, centenas. Milhares. Milhões.
Era bom que a TVI me fosse mantendo informado sobre o assunto.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Já lá vai o tempo...

Fui visitar o Museu da Carro Eléctrico, no Porto, que, inadmissivelmente, não conhecia. No sarrabiscos podem ver as fotografias de eléctricos desde 1872.
Além dos veículos, o Museu tem as fardas dos motoristas e revisores, os bilhetes da época, instrumentos vários e as instruções fornecidas aos funcionários.
Essas instruções estão aqui. Peço desculpa pela qualidade das fotografias mas os documentos estão envolvidos em plástico e dentro de estantes de vidro. De qualquer maneira dá para ler.

A sensação foi de nostalgia e de perda.
Nostalgia por ver, como objecto de museu, tanta coisa que conheci com "vida própria". Perda por ler palavras que, infelizmente, sairam dos dicionários dos portugueses: discreto, atencioso, zeloso, correcção, bom senso, delicadeza, respeito, paciência, bons modos, simpatia, ajuda, ...
"... manchar a reputação do STCP." A preocupação de incutir nos trabalhadores do STCP o respeito pela reputação da empresa é espantosa. Onde é que uma empresa, hoje, exige aos seus funcionários semelhante coisa? Os funcionários estão-se "nas tintas" para a empresa e os empresários estão-se "nas tintas" para os seus funcionários. Vive-se exclusivamente para o "ter".

Ontem, à vinda de Barcelos, vinha a ouvir a TSF no rádio do carro. Ouvi uma entrevista com o visconde de "qualquer coisa" sobre o livro "Sermão ao meu sucessor". Lamentava o referido senhor, a perda de alguns valores dos quais ele salientou o "bom gosto" e o "bom senso". Eu acrescentaria a "boa educação" (não instrução, que essa está morta; falta enterrar). A família, primeira responsável pela educação, é uma instituição em crise profunda. Nem sei se em extinção... Revezes do progresso...

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Para que servem 230 deputados?

O Presidente da República falou ao país. Não me apetece fazer comentários a essa intervenção embora me apetecesse dar a independência aos Açores e à Madeira para não nos incomodarem mais e fazerem os "lindos" com o seu dinheiro e não com o nosso.
Mas houve algo que me começou a fervilhar na cabeça. O diploma da discórdia tem uma série de inconstitucionalidades. Assim o disse o Tribunal Constitucional que deve ser credível. Digo eu...

Os duzenta e trinta deputados da Assembleia da República aprovaram este diploma por unanimidade. Sim. Disse a comunicação social. Unanimidade. Agora pergunto. Que fazem duzentos e trinta deputados, que na sua maioria são advogados? Não deveriam eles perceber de leis? Não deveriam eles ler os documentos antes de se pronunciarem sobre eles? Não deveriam eles detectar as inconstitucionalidades? São 230 seres pensantes, digo eu...

Isto não vai lá. Mesmo. O nosso futuro está entregue a esta gente.

Deve ser por estas coisas que se diz que a função pública está cheia de incompetentes...
Na sequência do que escrevi ontem, será que os duzentos e trinta deputados estão à espera de ver os seus vencimentos substancialmente aumentados para serem competentes?

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Gestores e remunerações

Em 2001 ficámos de tanga. Já lá vão sete anos. Mandaram-nos apertar o cinto. Mais e mais. Continuamos de tanga e sem vislumbrar o dia em que vamos poder desapertar o dito cinto. Os funcionários públicos viram os seus vencimentos congelados e, quando viram aumentos, foram sempre inferiores à inflação. Estamos a perder poder de compra todos os anos. Os meses são cada vez mais compridos. Está difícil chegar ao fim do mês sem dívidas. Quando se chega. Mas nestes anos todos o que vemos? Que o fosso entre ricos e pobres é cada vez maior. E dizem-nos que isto é socialismo.

Do que nós temos poupado, o Estado “deu” 27 milhões de euros, em 2007, a gestores públicos. E, depois de proclamar aos sete ventos que o número de funcionários públicos é exagerado, o Ministro das Finanças admite que o número de gestores públicos aumentou. Afinal estamos a ver quem aumenta os funcionários públicos. E logo os que são pagos a peso de ouro! Os que ganham dez vezes mais que os seus equivalentes alemães! 349 mil euros foi o custo médio por administração. Quantas dezenas de anos um português médio terá que trabalhar para auferir essa quantia? Esses gestores públicos podem ser competentes mas não estão nos lugares pela sua competência. Alegam-me que para se exigir competência tem que se remunerar convenientemente. Então, eu e tantos portugueses que ganham mal, podemos dar-nos ao luxo de ser incompetentes.


Julgava eu, na minha ingenuidade, que ser competente era a obrigação de qualquer trabalhador. Gestor, electricista, economista, médico, padeiro, professor, político…
Afinal ando enganada há mais de meio século. Para se ser competente é preciso ganhar muito, muito dinheiro. Que estúpida tenho sido! A levar a minha profissão tão a sério para ganhar uma miséria. E há quem ganhe muito menos do que eu! Este país não merece os portugueses trabalhadores honestos e competentes que tem. Como diria o meu pai “é dar pérolas a porcos”.

Enquanto continuar a haver cidadãos, amigos dos governantes e colocados em locais estratégicos, que autodefinem o seu vencimento, não me falem em socialismo.

domingo, 27 de julho de 2008

Derrapagem da Ponte Europa

O Tribunal de Contas disse, em 2004, que a obra da Ponte Europa, hoje Ponte Rainha Santa Isabel (?) foi adjudicada por 38,65 milhões de euros. A obra ficou em 111,3 milhões", o que representa uma derrapagem de 288%.
António Laranjo, o anterior presidente da Estradas de Portugal propôs, no ano passado, ao Governo que arquivasse o processo de apuramento de responsabilidades pela referida derrapagem. O Governo diz, agora, que "Não se afigura desejável nem adequado o arquivamento do processo".

O IEP, apesar de dispor de relatórios do Tribunal de Contas, da Inspecção Geral das Obras Públicas (IGOP) e de uma sociedade de advogados que já indiciavam responsabilidades, nunca retirou as devidas consequências. Os documentos criticam decisores políticos, projectistas, o consórcio Somague/Novopca e o dono da obra - JAE, ICOR e IEP. O IGOP considera "um caso exemplar de como não promover, projectar e construir uma obra pública".

No entanto, eu concordo com António Laranjo. Arquive-se. Para quê investigações? Os portugueses pagam a ponte, que isso sim, acontece sempre e deixemo-nos de teatros. Para quê gastar dinheiro se, todos sabemos, neste país a culpa morre sempre solteira? Ou já alguém viu algum decisor político, projectista, Somague/Novopca, JAE, ICOR e IEP ser condenado?

sábado, 26 de julho de 2008

O concelho do nosso primeiro

Diz-se que há um exagerado número de funcionários públicos. Se calhar há. Mas uma coisa é certa. Nenhum funcionário público aparece no seu posto sem mais. Ou concorreu a um concurso e foi admitido (caso dos funcionários públicos de mais baixos salários) ou o pai, o padrinho, o cunhado, o amigo… está no Governo, numa Câmara, numa Instituição e “dão o jeito” de os por lá a ganhar bem. A cunha é a mais sólida Instituição portuguesa e a única que se mantém sempre a funcionar maravilhosamente apesar das mudanças contínuas de equipas governativas.
Assim, os funcionários públicos que existem, existem porque os Governos assim o entenderam. Os mesmos Governos que dizem que o número é exagerado. Mas, há um estudo que os órgãos de comunicação não fazem (porquê?) que é saber desse número imenso de funcionários públicos, quantos trabalham directa ou indirectamente para o Governo.

Há uns tempos fiz um estudo para o concelho de Vizela que pode ver aqui e hoje debrucei-me sobre o concelho onde nasceu o primeiro-ministro - Alijó. Vamos então:
O concelho tem uma área de menos de 300 quilómetros quadrados (equivale a um quadrado com 17 quilómetros de lado), onde existem 49 povoações, e está dividido em 19 freguesias. É verdade. Para 49 povoações há 19 freguesias. Se olharmos para a área, cada freguesia não chega a ter, em média, 16 quilómetros quadrados (equivale a um quadrado com 4 quilómetros de lado). Um presidente de Junta por cada 800 habitantes.

Cada quintal destes custa-nos um edifício para a junta de freguesia, com todas as despesas que um edifício destes acarreta, e os ordenados do presidente da junta e de todos os que com ele trabalham.
Este concelho é um dos 14 que compõem o distrito de Vila Real que tem de área 4300 quilómetros quadrados. Assim sendo, cada concelho deste distrito tem, em média, a área deste. Ao todo há, no distrito de Vila Real, 277 freguesias. Como no Distrito de Vila Real há 218935 habitantes, temos uma média de uma junta de freguesia por cada 790 portuguesas. Nada mau!

Quantos funcionários públicos trabalham, e ganham, em todas as Juntas de Freguesia dos Concelhos em que nosso pequeno País está esquartejado? Adorava saber.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Pergunto eu

Para construir o TGV, os IPs, os ICs, as auto-estradas e tantas outras obras, que alguém considera (discutivelmente) como prioritárias para uma melhor qualidade de vida dos portugueses, o Governo tem prejudicado cidadãos que compraram, ou herdaram, as suas terras, as suas casas em locais que consideravam seus. Limita-se a expropriar os terrenos que precisa, sem qualquer preocupação de lhes oferecer compensações por essa perda inesperada e irreparável.

Por que razão apregoa agora uma série imensa de compensações aos cidadãos do Oeste pelo facto de o projecto do aeroporto ter passado da OTA para Alcochete?

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Portugal e os ciganos da Quinta da Fonte

O caso dos ciganos da Quinta da Fonte já me nauseia. E o tempo de antena que os órgãos de comunicação social dão àquelas pessoas, também. Ainda hoje o Presidente da Câmara de Loures dizia que a edilidade não tinha dinheiro para lhes dar outra casa e que havia mais gente necessitada. Já lhes demos, com os nossos impostos, uma casa, eles querem outra e ainda parece que estamos a pedir desculpa por não lha darmos. Esta minoria é mais do que os outros portugueses que, para terem uma casa, estão a pagar ao banco? Quanto português remediado tem um plasma? Eu não. Eles têm.
E se um cidadão comum se desesntender com um vizinho? A Câmara dá-lhe outra casa? Em local escolhido?

"O homem, jovem, movimentava-se num desespero agitado entre um grupo de mulheres vestidas de negro que ululavam lamentos. "Perdi tudo!" "O que é que perdeu?" perguntou-lhe um repórter.
"Entraram-me em casa, espatifaram tudo. Levaram o plasma, o DVD a aparelhagem..." Esta foi uma das esclarecedoras declarações dos autodesalojados da Quinta da Fonte. A imagem do absurdo em que a assistência social se tornou em Portugal fica clara quando é complementada com as informações do presidente da Câmara de Loures: uma elevadíssima percentagem da população do bairro recebe rendimento de inserção social e paga "quatro ou cinco euros de renda mensal" pelas habitações camarárias. Dias depois, noutra reportagem outro jovem adulto mostrava a sua casa vandalizada, apontando a sala de onde tinham levado a TV e os DVD. A seguir, transtornadíssimo, ia ao que tinha sido o quarto dos filhos dizendo que "até a TV e a playstation das crianças" lhe tinham roubado. Neste país, tão cheio de dificuldades para quem tem rendimentos declarados, dinheiro público não pode continuar a ser desviado para sustentar predadores profissionais dos fundos constituídos em boa fé para atender a situações excepcionais de carência. A culpa não é só de quem usufrui desses dinheiros. A principal responsabilidade destes desvios cai sobre os oportunismos políticos que à custa destas bizarras benesses, compraram votos de Norte a Sul. É inexplicável num país de economias domésticas esfrangalhadas por uma Euribor com freio nos dentes que há famílias que pagam "quatro ou cinco Euros de renda" à câmara de Loures e no fim do mês recebem o rendimento social de inserção que, se habilmente requerido por um grupo familiar de cinco ou seis pessoas, atinge quantias muito acima do ordenado mínimo. É inaceitável que estes beneficiários de tudo e mais alguma coisa ainda querem que os seus T2 e T3 a "quatro ou cinco euros mensais" lhes sejam dados em zonas "onde não haja pretos". Não é o sistema em Portugal que marginaliza comunidades. O sistema é que se tem vindo a alhear da realidade e da decência e agora é confrontado por elas em plena rua com manifestações de índole intoleravelmente racista e saraivadas de balas de grande calibre disparadas com impunidade. O país inteiro viu uma dezena de homens armados a fazer fogo na via pública. Não foram detidos embora sejam facilmente identificáveis. Pelo contrário. Do silêncio cúmplice do grupo de marginais sai eloquente uma mensagem de ameaça de contorno criminoso - "ou nos dão uma zona etnicamente limpa ou matamos." A resposta do Estado veio numa patética distribuição de flores a cabecilhas de gangs de traficantes e autodenominados representantes comunitários, entre os sorrisos da resignação embaraçada dos responsáveis autárquicos e do governo civil. Cá fora, no terreno, o único elemento que ainda nos separa da barbárie e da anarquia mantém na Quinta da Fonte uma guarda de 24 horas por dia com metralhadoras e coletes à prova de bala. Provavelmente, enquanto arriscam a vida neste parque temático de incongruências sócio-políticas, os defensores do que nos resta de ordem pensam que ganham menos que um desses agregados familiares de profissionais da extorsão e que o ordenado da PSP deste mês de Julho se vai ressentir outra vez da subida da Euribor."


(Mário Crespo, JN)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

TGV

Estive a jantar com duas das minhas filhas e com quatro dos meus netos. Dei comigo a pensar no Portugal onde viverão estes pequerruchos? O futuro deles está a ser comprometido pela megalomania dos políticos portugueses. Possivelmente o futuro dos filhos deles… e o futuro dos filhos dos filhos deles.

Quando vou a Lisboa viajo no alfa. Em menos de três horas vou de Lisboa ao Porto com toda a comodidade. Nalguns troços o alfa vai a uma velocidade superior e 200 km/h e noutros troços a 40 km/h. Quer isto dizer que o alfa não está a ser rentabilizado. Se o fosse, demoraria duas horas, ou pouco mais a fazer a viagem.

Este Governo insiste no TGV Lisboa – Porto. Um TGV que nos vai custar uma fortuna e, ainda por cima, vai ter mais paragens que o alfa. Como ainda me não explicaram a razão da necessidade do brutal investimento que se vai fazer, sou livre de pensar que seria bem mais sensato e económico arranjar uma linha para o alfa onde este pudesse ter uma velocidade média compatível com as suas potencialidades. Os comboios já nós temos. Estarei a raciocinar mal? Faltar-me-ão dados para equacionar o problema?

Mas isso não era uma obra suficientemente grande para a marca “Sócrates”.
Os países são como os cidadãos. Há os pobres, os remediados, os ricos e os muito ricos. Se Portugal é um país pobre ou, na melhor das hipóteses, remediado, que o seja assumidamente e viva como tal. Tem que aprender a viver com aquilo que tem e deve olhar primeiro para o que são as necessidades primárias do seu povo. Mas de todo o seu povo. Ninguém é mais que ninguém por ter mais bens, mas é mais que muitos se souber gerir bem aquilo que tem.

Agora vejam os TGVs que precisamos.

Daniel Campelo não comprometeu o futuro dos seus munícipes e tem a cidade de Ponte de LIma linda, conservada e com inúmeros eventos que atraem os turistas, nacionais e estrangeiros. Uma terra onde se vai sempre com gosto. O Governo que lhe siga o exemplo e olhe para as nossas reais necessidades onde não está, definiticamente, o TGV Porto - Lisboa.

domingo, 20 de julho de 2008

Assim vai a Matemática

"As negativas da Matemática no exame nacional do 9º ano caíram quase 30 pontos percentuais este ano, face a 2007, segundo dados revelados quinta-feira à noite pelo Ministério da Educação." - foi noticiado.

O Ministério da Educação informou que a «maioria dos alunos alcançou novamente uma classificação positiva na prova de Língua Portuguesa, enquanto na de Matemática «verifica-se a existência de progressos importantes, atribuíveis ao esforço de professores e alunos e a instrumentos de apoio».

Ninguém, em sã consciência, acredita neste milagre. Será os alunos do ano passado eram um desastre e que os deste ano são bons? É evidente que esta diferença não corresponde só a uma melhoria de aprendizagens. Não há possibilidade de, em Educação, analisar resultados de uma qualquer medida de um ano para o outro. Demora anos e anos... Uma legislatura não chega, para mal dos inúmeros ministros que a educação já contabiliza. Essa a maior razão do desastre educativo. Cada um que chega quer "meter o Rossio na Betesga"...

A Sociedade Portuguesa de Matemática considerou hoje que os resultados dos alunos do 9º ano à disciplina "na realidade, são piores" do que revelam as notas do exame nacional, porque as perguntas da prova, "na maioria dos casos, eram demasiado elementares". Por alguma razão uma aluna, na comunicação social lamentava não haver perguntas com algum grau de dificuldade para destacar os melhores alunos.

Numa turma de 7º ano, neste ano lectivo que está a terminar, uma apresentou esta resposta:
Repare-se como a aluna efectua a soma, alinhando oa números pelo primeiro algarismo, e como calcula o dobro, dividindo por dois.
O mais complicado foi explicar à aluna que chegou ao resultado certo por mero acaso. E com esse resultado certo, ainda conseguiu errar a alínea seguinte.