domingo, 30 de novembro de 2008

Competência das professores

Diz a Ministra que os professores devem confiar nos seus colegas mais competentes (refere-se aos professores titulares) mas quem lhes atribuiu essa competência foi a própria Ministra ao pôr em prática o mais escandaloso dos concursos – o primeiro concurso para professor titular. E foi com base neste concurso, eivado de injustiças e arbitrariedades, que foi construído este modelo de avaliação. Sobre alicerces podres. Por mais voltas que lhe dêem, será sempre um modelo de avaliação em que a competência estará ausente.

Para o acesso ao cargo de professor titular não era preciso ser competente em nada. Bastava ter tido muitos cargos entre 1999 e 2006. Por que razão foram escolhidos estes anos e não todo o percurso dos docentes? Só a Ministra sabe. No meu caso, professora do topo de carreira, a Ministra deitou-me, pura e simplesmente, ao lixo mais de 25 anos da minha carreira. Consegui, apesar disso, ser provida como professora titular. Por acaso, como todos, e não por mérito, como gostaria. Será aceitável que a competência seja medida por pontos adquiridos primeiramente pelo exercício, bom ou mau, de cargos? É a isto que a Ministra chama competência? Este concurso criou nas escolas situações impensáveis.

Um professor com 100 pontos, numa Área Disciplinar, ascende a professor titular e, na mesma escola, outro professor com 140 pontos, numa outra Área Disciplinar, não passa a professor titular. A medida da competência variou de escola para escola e, na mesma escola, de Área Disciplinar para Área Disciplinar.
Um professor do 10º escalão que tenha exercido todos os cargos possíveis numa escola antes de 1999 mas que entre 1999 e 2006 foi apenas professor, por melhor que tenha sido, não é professor titular.
Um professor do oitavo escalão que, por exemplo, por não ter horário na sua Área Disciplinar, integrou um cargo no Conselho Executivo mesmo que o tenho exercido sem competência, foi provido como professor titular.
Neste momento, este último professor pode ser avaliador do anterior.
Um professor que foi orientador de estágio pode vir a ser avaliado pelo seu avaliando de estágio, desde que o segundo tenha conseguido ascender a professor titular e o primeiro não.
E querem que eu considere aceitável este sistema de avaliação?

Seis meses sem democracia

A DGRHE e a Minsitra enviaram-me, no mesmo dia duas mensagens iguais.
Nada me liga a Manuela Ferreira Leite, muito pelo contrário, mas tanto alarido se fez, nomeadamente as palavras inaceitáveis de Alberto Martins, quando, afinal, os "seis meses sem democracia" já começaram.

"Exmo.(a) Senhor(a) Professor(a)

Prestam-se as seguintes informações relativamente ao processo de avaliação de desempenho dos docentes:

Um modelo de avaliação de desempenho que não prejudica nenhum professor

Com a classificação de Bom, para a qual não existem quotas, estão garantidas condições para uma normal progressão na carreira.
As classificações de Excelente e Muito Bom aceleram o ritmo da progressão.
Neste ciclo avaliativo eventuais efeitos negativos decorrentes das classificações de Insuficiente ou Regular estão suspensos e sujeitos a confirmação posterior.

Assim, este modelo protege os professores, dando-lhes condições mais vantajosas que à generalidade dos funcionários públicos, que não adquirem automaticamente condições de progressão com classificações isentas de quotas. Neste período transitório existe uma vantagem adicional para os professores, que decorre da não aplicação de efeitos das classificações negativas.

O que é, afinal, a avaliação de desempenho docente?
Este modelo de avaliação respeita a especificidade da função docente e o nível de qualificação que o seu exercício exige, ao contrário do que sucede com a larga maioria dos trabalhadores da administração pública - incluindo o pessoal não docente, que há dois anos é avaliado em todas as escolas.
É por isso que a avaliação do desempenho dos professores contempla duas vertentes e, consequentemente, é efectuada por avaliadores distintos:
- a avaliação funcional, que é assegurada pelo director ou presidente do conselho executivo e contempla dimensões inerentes ao desempenho de qualquer profissão, tais como o cumprimento dos objectivos individuais, a assiduidade, o cumprimento do serviço lectivo e não lectivo, a participação na vida da escola, entre outros.
- a avaliação científico-pedagógica, que é efectuada pelos professores coordenadores do respectivo departamento curricular ou outros professores titulares em quem tenha sido delegada a competência de avaliação, que são em regra os professores mais experientes.
Para que esta seja efectivamente uma avaliação de desempenho, e não uma análise documental baseada em registos administrativos, é fundamental, na vertente científico-pedagógica, a observação directa do desempenho em sala de aula.
É por esta razão que, embora esta vertente tenha sido tornada transitoriamente voluntária, ela permanece obrigatória para a atribuição das classificações que distinguem o mérito (Muito Bom e Excelente).

A avaliação dos professores e os resultados escolares dos alunos

Foi tomada a decisão de não considerar o parâmetro que avalia o contributo dos docentes para progresso dos resultados escolares e para a redução da taxa de abandono, na sequência, aliás, da recomendação do Conselho Científico de Avaliação de Professores, que considera a necessidade de uma maior consolidação técnica a este nível.

Esta medida decorre, fundamentalmente, da percepção de que se trata de um dos elementos de mais difícil operacionalização, dando, em muitas escolas, origem a instrumentos de registo e indicadores de medida muito complexos e induzindo uma forte carga burocrática, contribuindo, assim, para a simplificação do processo, que poderá prosseguir normalmente em todas as escolas.

Ministério da Educação"

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Saí

Eu faço parte dos professores que abandonaram.
(a imagem foi publicada não sei quando nem onde mas guardei-a no meu computador)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Inaceitável

Agora, que uma maioria significativa de escolas aprovou uma moção pedindo a suspensão deste modelo de avaliação, a Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação está a enviar por correio electrónico esta "mensagem" aos professores. Esta foi enviada ontem.
Esta atitude é tanto mais condenável quanto a legislação não permite que os documentos sobre a avaliação de qualquer docente sejam do conhecimento dos técnicos da DGRHE.
Isto tem um nome mas é tão feio que nem o escrevo.

O meu endereço de correio electrónico não deve constar na DGRHE...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Clarificar ou alterar?

Expliquem-me, como se eu fosse ministra, se o despacho de ontem vem clarificar ou alterar a lei 3. Para mim a lei 3 é clara e é alterada com o despacho.

Lei n.º 3/2008 de 18 de Janeiro
Artigo 22.º
Efeitos das faltas
1 — Verificada a existência de faltas dos alunos, a escola pode promover a aplicação da medida ou medidas correctivas previstas no artigo 26.º que se mostrem adequadas, considerando igualmente o que estiver contemplado no regulamento interno.
2 — Sempre que um aluno, independentemente da natureza das faltas, atinja um número total de faltas correspondente a três semanas no 1.º ciclo do ensino básico, ou ao triplo de tempos lectivos semanais, por disciplina, nos 2.º e 3.º ciclos no ensino básico, no ensino secundário e no ensino recorrente, ou, tratando -se, exclusivamente, de faltas injustificadas, duas semanas no 1.º ciclo do ensino básico ou o dobro de tempos lectivos semanais, por disciplina, nos restantes ciclos e níveis de ensino, deve realizar, logo que avaliados os efeitos da aplicação das medidas correctivas referidas no número anterior, uma prova de recuperação, na disciplina ou disciplinas em que ultrapassou aquele limite, competindo ao conselho pedagógico fixar os termos dessa realização.
3 — Quando o aluno não obtém aprovação na prova referida no número anterior, o conselho de turma pondera a justificação ou injustificação das faltas dadas, o período lectivo e o momento em que a realização da prova ocorreu e, sendo o caso, os resultados obtidos nas restantes disciplinas, podendo determinar:
a) O cumprimento de um plano de acompanhamento especial e a consequente realização de uma nova prova;
b) A retenção do aluno inserido no âmbito da escolaridade obrigatória ou a frequentar o ensino básico, a qual consiste na sua manutenção, no ano lectivo seguinte, no mesmo ano de escolaridade que frequenta;
c) A exclusão do aluno que se encontre fora da escolaridade obrigatória, a qual consiste na impossibilidade de esse aluno frequentar, até ao final do ano lectivo em curso, a disciplina ou disciplinas em relação às quais não obteve aprovação na referida prova.
4 — Com a aprovação do aluno na prova prevista no n.º 2 ou naquela a que se refere a alínea a) do n.º 3, o mesmo retoma o seu percurso escolar normal, sem prejuízo do que vier a ser decidido pela escola, em termos estritamente administrativos, relativamente ao número de faltas consideradas injustificadas.
5 — A não comparência do aluno à realização da prova de recuperação prevista no n.º 2 ou àquela a que se refere a sua alínea a) do n.º 3, quando não justificada através da forma prevista do n.º 4 do artigo 19.º, determina a sua retenção ou exclusão, nos termos e para os efeitos constantes nas alíneas b) ou c) do n.º 3.

Despacho de 16 de Novembro de 2008
Considerando que a adaptação dos regulamentos internos das escolas ao disposto no Estatuto do Aluno nem sempre respeitou o espírito da Lei, permitindo dúvidas nos alunos e nos pais acerca das consequências das faltas justificadas designadamente por doença ou outros motivos similares
Considerando que o regime de faltas estabelecido no Estatuto visa sobretudo criar condições para que os alunos recuperem eventuais défices de aprendizagem decorrentes das ausências à escola nos casos justificados
Tendo em vista clarificar os termos de aplicação do disposto no Estatuto do Aluno, determino o seguinte:
1 – Das faltas justificadas, designadamente por doença, não pode decorrer a aplicação de qualquer medida disciplinar correctiva ou sancionatória.
2 – A prova de recuperação a aplicar na sequência de faltas justificadas tem como objectivo exclusivamente diagnosticar as necessidades de apoio tendo em vista a recuperação de eventual défice das aprendizagens.
3 – Assim sendo, a prova de recuperação não pode ter a natureza de um exame, devendo ter um formato e um procedimento simplificado, podendo ter a forma escrita ou oral, prática ou de entrevista.
4 – A prova referida é da exclusiva responsabilidade do professor titular de turma, no primeiro ciclo, ou do professor que lecciona a disciplina em causa, nos restantes ciclos e níveis de ensino.
5 – Da prova de recuperação realizada na sequência das três semanas de faltas justificadas não pode decorrer a retenção, exclusão ou qualquer outra penalização para o aluno, apenas medidas de apoio ao estudo e à recuperação das aprendizagens, sem prejuízo da restante avaliação.
6 – As escolas devem adaptar de imediato os seus regulamentos internos ao disposto no presente despacho, competindo às Direcções Regionais de Educação a verificação deste procedimento.
7 – O presente despacho produz efeitos a partir do dia seguinte à data da sua assinatura.

sábado, 8 de novembro de 2008

A galinha dos ovos de ouro

Depois de ver 120.000 professores na rua contra uma avaliação de desempenho idiota, injusta, burocrática e geradora de conflitos inimagináveis, a Ministra veio à televisão dizer, rindo (por que se ri agora uma mulher que nunca soube rir?) dizer que procura salvaguardar os interesses públicos. E julgava eu que a aprendizagem dos alunos era um interesse público!
Disse, também, que a avaliação era para cumprir porque está na lei e as leis são para cumprir e que os avaliados devem confiar nos professores mais experientes.
Mas não disse que quem decretou quem eram os professores mais experientes foi ela com o mais escandaloso dos concursos – o concurso para professor titular. Um professor com 36 anos de serviço, com mestrado ou doutoramento pode vir a ser avaliado por um professor bacharel que entre 2000 e 2007 fez parte do Conselho Executivo. Para Maria de Lourdes Rodrigues a competência é medida pela quantidade (não qualidade) de cargos que ocupou entre 2000 e 2007. A razão por que foi escolhido entre prazo só é do conhecimento da ministra. Podemos conjecturar à vontade.
Disse, ainda, que a única coisa que se pede aos professores é que preencham uma ficha com duas páginas com os objectivos individuais. Se a mentira pagasse imposto, Portugal resolveria todos os seus problemas orçamentais com os impostos desta senhora.
O número de pedidos de aposentação de professores aumentou, em relação a 2007, 35% e muitos destes pedidos correspondem a aposentações antecipadas e com penalização. Será que isto também não significada nada?
Definitivamente esta mulher não vai lá nem com um desenho…
Repito o que já venho a dizer desde 2001. “ O ensino privado é a galinha dos ovos de ouro”.

O que fizeram da escola!

Segunda-feira, às 14:15 h fui chamada para uma substituição. Não havia plano de aula. A professora em causa tinha acabado de receber a sua aposentação antecipada e com penalização. Uma professora que já estava na escola onde lecciono quando para lá fui e eu já lá estou há 20 anos.
Dirigi-me à sala de aula. Estavam os (talvez) 28 alunos do 7º B que não conhecia. Muitos choravam e diziam "A Professora M. era nossa amiga. Ensinava bem e ajudava-nos muito".
Estes alunos só conheciam esta professora desde meados de Setembro.
Em contrate com isto, a professora estava num sino. Irradiava felicidade e até as lágrimas lhe vieram aos olhos de tanta alegria. Finalmente estava livre do inferno que se vive hoje nas escolas.
Analisando esta situação, só se pode concluir que algo está mal. Uma pessoa que dedicou uma vida ao ensino, uma professora de quem os alunos gostam ao ponto de chorar a sua saída abandona a profissão de uma vida sem tristeza e com penalização na sua reforma.
Como foi possível deixar que estas situações acontecessem? A debandada é geral.
Eu também espero, mais dia menos dia, a aposentação que pedi, também antecipada e também com penalização. Dediquei 36 anos da minha aos jovens e às escolas por onde andei. Nunca pensei "fugir" antes do tempo. Mas tenho andado a assistir às exéquias do ensino público. Quando chegar o funeral, desculpem, eu não quero estar lá.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Patético

“Todos os meus assessores usam este computador (Magalhães) porque não precisam de outro.” - palavras de José Sócrates.

Estas palavras lembraram-me um poema de António Gedeão.

Estatística

Quando eu nasci havia em Portugal
(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Pau de giz

No Pau de giz vou começar a transcrever pedaços de crónicas minhas publicadas há anos. Aproveito para relembrar e ver que o país onde tive a desdita de nascer não consegue mesmo progredir.

Hoje deixo aqui um pouco de "Ler, escrever e contar" publicada em Março de 2001.

"Todos acompanhámos as eleições americanas. Depois de semanas e semanas a contar, recontar e passar à lupa os boletins de voto, Bush lá chegou à presidência dos Estados Unidos da América. E, para começar, colocou no topo da agenda a educação. Elegeu-a como a sua paixão. (Onde é que eu já ouvi isto?). Pelos vistos Bush chegou à conclusão que a educação não está lá grande coisa. Acontece aos melhores. Mas o presidente é realista. Quer começar pelo princípio, com pequenos passos e propostas viáveis. Começar pelos mais pequeninos. Começar por baixo. Faz ele muito bem. A única coisa onde se começa por cima é a abrir buracos, sempre ouvi dizer desde miúda. Quer, então, o presidente que, dentro de quatro anos, todas as crianças saibam ler, escrever e contar quando completarem nove anos. Era exactamente o que nós devíamos querer. Quer, e muito bem, avaliar as escolas. É assim que deve ser. Exigir. Desde que sejam dadas as condições para tal. Quem não cumpre, deve ser penalizado por isso. Não se deve deixar impune quem não faz aquilo que é sua obrigação fazer. A todos os níveis.

A proposta feita por Bush foi aceite por democratas e republicanos. Ou seja, todos concordam que o ensino não vai bem e todos querem melhorar as coisas. Governo e oposição põem de parte as partidarices políticas para, conjuntamente, resolverem um problema que afecta todos os jovens que serão os homens e mulheres de amanhã. Por cá, quando um Governo, tenha ele a cor que tiver, faz uma proposta, só tem como certa uma coisa. A divergência da oposição. Qualquer que seja a proposta.


Querer que as crianças com 9 anos saibam ler, escrever e contar é querer na medida certa. Algo que podia muito bem ser copiado por nós. Aliás, nós já tivemos isso por cá. Já lá vai o tempo em que, com a quarta classe, se sabia ler, escrever e contar. Até se sabia muito mais do que isso. Nem tudo estaria bem nessa altura. Saber de cor as paragens e apeadeiros da linha do Norte ou da Beira Alta, convenhamos, que não tem grande interesse. Mas também tinha a vantagem de se ficar a saber que o Entroncamento não fica em Trás-os-Montes. E não me consta que haja gente traumatizada por ter aprendido, na instrução primária, a ler, escrever e contar como deve ser. Depois, uns iluminados chegaram à conclusão que as criancinhas de hoje não são feitas da mesma massa que eram as de algumas dezenas de anos atrás. Tudo as traumatiza. A talho de foice, conto aqui uma história de que tomei conhecimento há dias. Uma mãe, preocupada com a péssima caligrafia do filho, mal de que padece a grande maioria dos alunos, sugeriu à professora do 1º ciclo que pusesse os alunos a escrever em cadernos de linhas. A professora, escandalizada, argumentou que isso iria restringir a criatividade dos alunos. Bons tempos em havia caligrafia. Em que um a era um a ou um o era um o para toda a gente; em que um a minúsculo não era um A maiúsculo pequenino. Chegámos a isto. Os alunos completam o nono ano sem saber ler, escrever e contar. Mas o que se quer, de há muito tempo a esta parte, é que toda a gente tenha a escolaridade obrigatória. Mesmo que não saiba nada de nada. Em termos estatísticos, para consumo interno, isso conta muito.

..."

domingo, 26 de outubro de 2008

O computador do MST

Não sei onde está o computador do Miguel Sousa Tavares mas dava tudo para o ter na minha mão. Acho que uma vida inteira dedicada à educação merecia o gozo de poder dizer ao dito senhor que o seu computador estava nas mãos de uma professora que faz parte dos “inúteis mais bem pagos do país”, como ele disse. (aquele ódio visceral à classe docente já raia o patológico)
Dir-lhe-ia, ainda, que não queria mais nada dele em troca da pequena máquina, como ele pediu. Exigiria, somente, desse senhor um pedido público de desculpas a todos os professores a ser veiculado através de todos, mas todos mesmo, os órgãos de comunicação social.
Pena não poder oferecer-me esse prazer…

Onde anda a democracia?

Conheci Carlos Paiva ontem no lançamento do seu livro. Este professor escreveu “O Ensino Básico vai de mal a pior – uma abordagem pedagógica e política”. Para promover a sua apresentação e para o lançamento solicitou, por escrito, a uma escola pública do Concelho de Matosinhos, onde se lecciona o ensino básico, o aluguer do Pavilhão Polivalente da Escola. O Conselho Executivo informou, também por escrito, da impossibilidade de aluguer do referido Pavilhão sem dar qualquer justificação, tendo verbalmente considerado tal sessão como inconveniente e desadequada. O autor do livro solicitou mais esclarecimentos que não obteve.
Curiosamente essa mesma escola já, há tempos, permitiu o lançamento do livro de uma colega nas suas instalações.

A mulher de Carlos Paiva que, como eu, é professora dessa escola foi a outra escola do Concelho de Matosinhos pedir para deixar uns pequenos marcadores com a divulgação da sessão de lançamento do livro. Depois de muita persistência, um elemento do Conselho Executivo permitiu que esses inofensivos marcadores fossem colocados na sala dos professores. Contudo, o Vice-presidente da mesma escola, chamou a atenção da colega pelo facto de ter ousado entrar na sala dos professores "ainda por cima por causa disto", palavras do Vice-presidente mostrando o marcador. “Isto” era tão-somente um pedaço de papel de 5X19 cm.

Estes factos suscitam-me muita preocupação e levantam-me algumas dúvidas. Haverá Conselhos Executivos com medo? De quê? De quem? Colaborar com um colega que escreve um livro, não bajulando os responsáveis pela política educativa, comprometerá o cargo de Director que aí vem e que alguém estará interessado em ocupar? Um livro terá um poder tão grande que amedronte?

Mas isso pouco interesse tem. O que importa é que me andam a dizer que vivemos em democracia há 35 anos e eu não consigo vê-la. Ou me andam a enganar ou a graduação dos meus óculos não está correcta.

Felizmente ainda há Conselhos Executivos que sabem o que é liberdade de expressão e disponibilizam as suas instalações para o lançamento de um livro de um colega de trabalho. O da Escola Secundária Augusto Gomes, também no Concelho de Matosinhos, é um deles e merece toda a minha consideração.

sábado, 18 de outubro de 2008

Poema ao Magalhães

Chegou-me, via correio electrónico, este poema de Luís Costa, que não conheço. Achei-lhe graça e, antes de falar da famigerada acção de formação do Magalhães, deixo-o aqui.

Migalhães

Lá vem pelo avelar
O filho do Manel João
Vem do centro escolar
Cansado de palmilhar
A caminho da povoação

Não há médico na aldeia
E a antiga escola fechou
Não tem carne para a ceia
Nem petróleo para a candeia
Porque o dinheiro acabou

O seu pai foi para França
Trabalhar na construção
E a mãe desta criança
Trabalha na vizinhança
Lavando pratos e chão

Mas o puto vem contente
Com o Migalhães na mão
E passa por toda a gente
Em alegria aparente
De quem já sabe a lição

Um senhor muito invulgar
Que chegou com mais senhores
Veio para visitar
O novo centro escolar
E dar os computadores

E lá vem o Joãozinho
No seu contínuo vaivém
Calcorreando o caminho
Desesperando sozinho
À espera da sua mãe

Neste país de papões
A troco de dois vinténs
Agravam-se as disfunções
O rico ganha milhões
E o pobre Migalhães

Luís Costa

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sala dos Professores

Há sempre quem ganhe com a desgraça dos outros.

Na avaliação de desempenho dos professores que a Ministra entendeu por em vigor com o aval dos sindicatos, que olham pelo interesse deles e não pelo de quem representam, o trabalho com os alunos na sala de aula é o que menos interessa. O que importa é que haja muitas, muitas, muitas grelhas cheias de texto, de preferência em eduquês. Como o dia dos professores é igual ao dos outros portugueses e estes "inúteis" (como lhes chama o "inútil" do Miguel Sousa Tavares) teimam em comer e dormir qualquer coisa, o tempo vai escassear para o que menos valor tem - as aulas.
Estou à vontade para falar desta avaliação porque, em primeiro lugar, já escrevi há muitos anos uma crónica sobre este tema, criticando a avaliação que estava em vigor e, em segundo lugar, porque enviei à Ministra, por escrito e aquando da discussão, a minha proposta de avaliação. Digo isto para que o Miguel Sousa Tavares, o Emídio Rangel, o Manuel Ribeiro e outros tantos que, repentinamente, se tornaram conhecedores dos problemas da educação sem nunca terem dado uma aula ao ensino não superior, não possam (ou melhor, não devam, porque poder podem tudo) dizer que eu sou contra a avaliação dos professores.

As editoras espreitaram o furo e aí estão elas a apresentar os seus materiais de apoio para a avaliação dos professores. Livros e livros com grelhas e grelhas. É só comprar...
E a procissão ainda vai no adro...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Aberta a época da caça ao caloiro

Todos os anos, por esta altura, se reacende a minha preocupação ao ver aproximar-se a altura das “praxices”.

Em Setembro de 2003 escrevia eu numa crónica:
“Um novo ano escolar começou. E com ele há mais uma montanha de caloiros. Caloiros que vão ser aliciados para colaborar com a estupidez da praxe. A praxe foi uma tradição coimbrã, quando Coimbra era uma pequena cidade estudantil. Tudo o resto eram toscas imitações. Hoje em dia a praxe está deslocada, não tem qualquer justificação, é estúpida e selvagem. Não há razão de espécie alguma que justifique a humilhação de pessoas. Pôr os caloiros a quatro, feitos animais, a dizer obscenidades, colocar-lhes bosta na cara, obrigá-los a tirar a roupa ou a simular actos sexuais, mergulhá-los em tanques públicos são algumas das idiotices que os alunos mais velhos fazem aos caloiros. Mais grave. Fazem-no com orgulho e ainda acham graça. Não é assim que se inserem os novos alunos no novo mundo que os espera. O que se passa é perfeitamente lamentável.”

Os bandos com que já me cruzei e a televisão mostraram-me que as praxes começaram e a idiotice e grosseria dos praxistas, com idade para ter juízo, e muito deles idade para trabalhar, se mantêm. Com o pretexto da integração dos caloiros, os mais velhos sentem-se no direito de penalizar os caloiros que se recusam a ser praxados, impedindo-os de um dia se vestirem de zorros. Quem são estes galfarros para punir um(a) colega? Normalmente são os cábulas. Os que lá andam a gastar o nosso dinheiro. O dux já devia estar, há muitos anos, a trabalhar e a contribuir com os seus impostos para as necessidades das Universidades onde entram aqueles que ele anda a praxar.

Às palavras de uma caloira “Não sofram, não se deixem humilhar só porque têm o sonho da capa. Não se deixem enganar. A capa preta não vos dá mais dignidade”, eu acrescentaria. Não vão em carneiradas. Sejam capazes de dizer não. E não se esqueçam que, até hoje, nunca ninguém foi penalizado pelos actos que originaram problemas, alguns dos quais bem graves.

O Dr. Pacheco Pereira escreveu há muito tempo, a propósito das praxes, que “cada vez mais a única coisa que os estudantes transportam do liceu para a universidade é a sua carga de ignorância”. Não podia estar mais de acordo. Só isso justifica que, simultaneamente, se encantem e amedrontem com os mais velhos e não tenham a coragem de dizer não à praxe. Os mais velhos só têm mais do que os caloiros uma coisa – a idade. E mais idade, infelizmente, nem sempre corresponde a mais responsabilidade.

sábado, 27 de setembro de 2008

Pobre Fernão de Magalhães!

Fernão de Magalhães foi um português determinado, nascido em Trás-os-Montes, na segunda metade do século XV, que preparava as suas estratégias “como passos de dança”. “Dominava, como poucos, as técnicas de navegação. Isso levou-o a projectar uma viagem espantosa, que respondeu à grande questão da época: saber se a terra era esférica ou não”.
Participou na conquista de Malaca sob o comando de Afonso de Albuquerque, em 1513, e em 1519 inicia a primeira viagem de circum-navegação. Chegou à baía de Guanabara, alcançou a foz do Rio de Prata, passou na baía de S. Julião, desembocou no Pacífico, descobriu a ilha dos Ladrões e o arquipélago das Filipinas, onde morreu em combate.

Um português destes não merecia a “fantochada” que foi feita com os computadores, aos quais foi dado o seu nome, e que uma dúzia de governantes andou a distribuir por esse país fora.

Vamos primeiro às cenas que vimos e às que não vimos na televisão. O que vimos foi um alarido tal que só se justificava se o Fernão de Magalhães tivesse acabado de concluir a viagem de circum-navegação agora. Vimos um governo inteiro fechar “o tasco” para se passear pelo país fora numa acção de total e absoluta inutilidade. Os Directores Regionais, ou os próprios Conselhos Executivos das escolas podê-lo-iam ter feito.
Agora o que não vimos. Na escola de S. Mamede de Infesta, além do primeiro-ministro, estavam os operadores das redes móveis. Tudo acabado, faltava desmontar as tendas. Os operadores foram informados que tinham de esperar que o PM falasse e ele só falava às 13 h para entrar em directo nos telejornais. A P. telefonou-me indignada. Queria vir-se embora, precisava de almoçar, queria continuar o seu dia de trabalho e estava impedida de o fazer por causa da propaganda eleitoral do PS. A isto eu chamo falta de respeito pelos cidadãos que trabalham e que, ainda, não são obrigados a colaborar em festas eleitoralistas.

Agora falemos dos Magalhães computadores. Para que querem as crianças do primeiro ciclo um computador pessoal? Para jogar. Será isso tão educativo que mereça este investimento e este despropósito? Mais. Todas essas crianças já têm acesso aos computadores da escola e muitos deles têm-no em casa. Já estive, vários anos a dirigir a sala de estudo da escola onde lecciono. Contavam-se pelos dedos das mãos os alunos que recorriam aos computadores para trabalhar. Os jogos e a página do Futebol Clube do Porto eram a procura maioritária.

Enquanto se oferecem computadores a eito, na minha Área Disciplinar somos 12 professores e temos 1 (um) projector multimédia. É ver quem chega primeiro e o apanha. Que me interessa ter no meu portátil uma simulação, um programa, uma página interessantíssimas para os alunos, se chego à escola e não o posso mostrar porque outro(a) colega já “arrebanhou” o projector multimédia?


Pergunto eu. Não seria muito mais útil investir este balúrdio que foi gasto, do propagandeado plano tecnológico, no apetrechamento das escolas? Computadores têm as escolas em número mais que suficiente para todos os alunos que o não têm em casa.

Mas, para o cidadão ignorante (a maioria), apetrechar as escolas não lhes entra pela casa dentro. Não vêem como uma mais-valia. E os pais correspondem a muitos, muitos votos.
Haja paciência para tanta ignorância de uns e tanta hipocrisia dos outros.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sarcasmo

Vi e ouvi uma pequena parte do debate na Assembleia da República.

Estou a acabar de ler um livro de Julian Barnes que, num dos contos de "A mesa limão", diz que o sarcasmo é uma fraqueza moral. Foi o que eu vi no sorriso do nosso primeiro...

sábado, 20 de setembro de 2008

Fica o aviso

Após oito dias do início das aulas, continuam as visitas de altas figuras do Governo às escolas numa pura encenação de propaganda eleitoral. Quem assim age está obsessivamente empenhado em tentar compensar reformas erradas com uma estudada boa figura perante o país, através dos órgãos de comunicação social.

Sou adepta confessa da valorização do mérito. Mas do mérito mesmo. Não considero digno de mérito "ter um olho em terra de cegos". As escolas têm o seu “Quadro de Honra” e há Instituições como os Lions ou os Rotários que atribuem prémios aos melhores alunos das escolas da sua área. Absolutamente de acordo desde que as escolas não atribuam mérito a todos que têm uma média superior a um valor estipulado. Isso é tirar mérito ao mérito.

Institucionalizar o “Dia do Diploma” já me parece exagero. Os alunos que têm possibilidade de frequentar o 12º ano, não fazem mais do que a sua obrigação em conclui-lo. Fazem aquilo que devem fazer – trabalham. Não têm nisso mérito algum. Daí que considere fantochada, a entrega pelo Primeiro-ministro dos diplomas de fim de ciclo a tantos jovens. Com tantos problemas com os quais o país se debate, pensava eu que o PM teria mais que fazer do que andar a calcorrear o país, de escola em escola, acompanhando a Ministra da Educação.

A “atribuição dos Prémios de Mérito Ministério da Educação, criados com o objectivo de distinguir, em cada escola, o melhor aluno dos cursos científico-humanísticos e o melhor aluno dos cursos profissionais, tecnológicos ou do ensino artístico especializado” serviu para dar ao Governo mais uns largos minutos de antena. Pura campanha eleitoral. (Sobre estes prémios ainda me debruçarei numa próxima oportunidade já que não é tão linear como consta na página do Ministério).Pura propaganda eleitoral foi, também,a entrega de livros aos mais pequenos. Areia que atiram para os olhos dos portugueses que ainda se deixam levar por estas coisas. Uma jornalista de um canal televisivo referia a pertinência da entrega de livros num país onde um em cada dez portugueses são analfabetos.

Não tenho a pretensão de fazer ver o que se passa nas escolas a quem não vive o dia a dia de uma delas. Já desisti. Os fazedores de opinião (que nunca estiveram ligados ao ensino não superior mas são pagos para falar do que não sabem) já “construíram” a cabeça de muitos portugueses. Mas, com 36 anos de sala de aula, sinto-me no dever e com o direito de deixar um aviso. Este Governo sempre disse que era urgente qualificar os portugueses, nunca disse que era preciso prepará-los para algo. Portanto, está a cumprir esta promessa (deve ser a única). Está a qualificar aos milhares. Veja-se como esta senhora fez 4 anos em cerca de 25 horas.

Deixem continuar estas “reformas” que daqui por uma dezena de anos teremos 8 em cada 10 cidadãos analfabetos... mas qualificados. Os 2% que retirei referem-se aos que têm famílias com nível cultural e económico que lhes permite proporcionar aos seus filhos um ensino de qualidade e exigência.


Quem viver verá.
Eu espero estar cá para assistir ao povo a dizer “o rei vai nu”.
Fica o aviso.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

AS ACND

Tenho na minha mão a cópia do ofício que seguiu ontem para a Caixa Geral de Aposentações e que diz:"A pedido da subscritora acima referenciada, somos a enviar requerimento de aposentação."

Não queria acabar assim a minha carreira. Dediquei-me demasiado e demasiados anos para me ver forçada a “fugir” da profissão que escolhi e da qual gostei muito. Mas esta equipa governativa não me dá alternativa. Transformaram-me em burocrata e o tempo que me dão para ser professora é insuficiente para exercer a profissão com a qualidade com que me orgulho de sempre o ter feito. Os fazedores de opinião, tipo Miguel Sousa Tavares, Emídio Rangel, Manuel Ribeiro e tantos outros trataram-me como a mais vil das criaturas. A Confederação Nacional das Associações de Pais, na voz do senhor Albino Almeida, também me ofendeu variadas vezes. A Ministra chamou-me publicamente professorazeca e foi o menor dos insultos. Gente desta não merece o que eu fiz pelo país que é de todos. Ficam eles. Eu vou. Atingi a exaustão.
Resta-me a consolação de ter ajudado a formar verdadeiros cidadãos que, depois de décadas, ainda me contactam e querem a minha assinatura nas fitas da sua pasta. Por eles, e apenas por eles, não dou o tempo por perdido.

Hoje vou ter uma reunião de professores que leccionar a Área de Projecto. Eu tenho essa área curricular não disciplinar (ACND) numa das turmas do oitavo ano.
Para a reunião foram-me enviados, para além da convocatória, 14 (catorze) documentos. A ver:
Grelha de Observação, Grelha de Avaliação, Ficha de Avaliação de Grupo, Ficha de Auto-Avaliação, Ficha de Avaliação Intermédia, Planificação das disciplinas intervenientes, Planificação Geral, Planificação de Grupo, Temas sugeridos, Projecto do Clube de Protecção civil do meu estabelecimento de ensino, Documentos com todas as etapas do trabalho de projecto, Despacho nº 19308 de 21 de Julho de 2008, Nos trilhos da Área de Projecto (documento com 14 páginas) e a lista dos docentes que irão leccionar a dita ACND.

Tudo isto me é enviado por mail, pelo que sou eu que imprimo toda esta “tralha” com impressora, papel e tinta que pago do meu bolso e que continuarei a pagar cada vez que me pedirem grelhas ou fichas preenchidas.

Mas eu sou professora da disciplina de Ciências Físico-Químicas, uma Área Curricular Disciplinar (ACD). Para esta disciplina eu tenho aulas para preparar, planificação anual e planificação para os encarregados de educação, grelhas para correcção de testes, grelhas para correcção de fichas de trabalho, grelhas para a avaliação sistemática na sala de aula, grelhas de observação para as aulas práticas e sei lá que mais. Ou bem que dou aulas como deve ser ou bem que preencho papelada.

Para terminar quero deixar aqui a lista das áreas curriculares, disciplinares ou não, que esta turma de miúdos do oitavo ano tem. Língua Portuguesa, Inglês, Francês, História, Geografia, Matemática, Ciências Naturais, Ciências Físico-Químicas, Educação Visual, Expressão Artística (um semestre), Educação Tecnológica (um semestre), Educação Física, PAM (Plano de Acção da Matemática), Formação Cívica, Estudo Acompanhado, Área de Projecto e Educação Moral e Religiosa Católica (facultativa). Contem-nas… eu vou para a reunião.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Que seria de nós sem o simplex?

Tenho um casal amigo que teve um jovem familiar a estudar na Dinamarca. Estiveram lá algumas vezes e um dia disseram-me: “Nunca vás à Dinamarca. Certinha, honesta, metódica e arrumada como és, de certeza que não regressas”. Vem isto a propósito de um episódio que vivi há minutos.
Fui aos serviços administrativos da minha escola entregar um documento necessário para completar o processo do pedido da reforma. Por lei podia pedi-la no dia 14 de Setembro. Como calha num domingo, seria espectável que o processo seguisse na segunda-feira, dia 15. Seria se eu estivesse na Dinamarca... O impresso que acompanha o processo tem que ser preenchido on-line. Depois de assinado por quem de direito, é anexado ao processo e enviado à Caixa Geral de Aposentações.
Mas o simplex tem coisas que nem ao diabo lembram. O impresso não aceita, no preenchimento on-line, a data do dia mas apenas a da véspera. Sendo assim, não pode ser preenchido no dia 15 porque a véspera é domingo e o computador não aceita. Terá de ser preenchido no dia 16 para figurar a data de 15.
Tudo isto num país onde, segundo li, o nosso primeiro se “licenciou” num domingo.
Neste país de filhos e enteados, os filhos são cada vez mais filhos e os enteados são cada vez mais enteados.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Roubar legalmente

Apresentei-me hoje ao serviço após as férias a que a lei me dá direito. Mas não pensem que chego ao serviço e começo a trabalhar. Não. Tenho de pagar para recomeçar o meu serviço após as férias. Sou obrigada a comprar, sem recibo, um impresso (cinco cêntimos, paguei hoje), do Ministério da Educação, que preencho. Só após a entrega desse impresso preenchido, eu estou efectivamente ao serviço.

Todos os anos é isto. Pago para ir trabalhar. E pago porque uma lei estúpida a tal me obriga. Mas pago sob protesto. E se tiver dois períodos de férias, são dois os impressos que compro, sem recibo.

Acho inaceitável ter de pagar para retomar o serviço depois das férias ou de um atestado médico. Quanto aos atestados, os que entreguei numa vida inteira de trabalho, não ultrapassaram a meia dúzia. Mas férias, gozo-as todos os anos.

A quantia em causa é insignificante mas o princípio, francamente, acho inadmissível. Tudo serve para nos roubarem dinheiro cujo destino nenhum de nós conhece pelo que temos o direito de fazer as nossas suposições. E, se multiplicarmos os 50 cêntimos por milhares de professores todos os anos, já dá uma quantia bastante razoável.

Será que os ministros e afins também compram um impresso para retomar o serviço?
É o país que temos. O Governo não aparece encapuçado, não vem armado mas rouba da mesma maneira. Oferece a si mesmo as leis que lhe permitem roubar legalmente.