quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A ida à urgência

Felizmente a minha saúde tem-me poupado a idas às urgências dos hospitais públicos. São locais que me deixam em pânico essencialmente pela desumanização que sei que vou encontrar como já encontrei quando tive uma filha internada com uma gravidez de risco que, depois de muitos maus momentos, acabou bem. Ontem lá tive que ir à urgência do hospital da minha residência. O tempo de espera até à chamada para a triagem foi bastante razoável. Às 11:39 h, com uma pulseira verde, lá fui enviada para outra sala de espera onde estava este enorme quadro na parede.
Como não estava muita gente (e eu sou inocente nestas coisas, felizmente) pensei que os 120 minutos de espera eram um exagero. Entretanto começaram a entrar pulseiras amarelas umas atrás das outras. Lá passavam à frente, chamados por vozes brasileiras e espanholas. E eu a vê-las passar. O ar condicionado estava fortíssimo e eu já tiritava esticando, em vão, as mangas curtas da camisa. Os 120 minutos passaram e resolvi telefonar a uma das filhas para me levar lá um casaco quente, um livro para ajudar a passar o tempo, uma garrafa de algo que se bebesse e umas bolachas para não cair redonda de frio e fome. Lá vesti o casaco de lã, bem quente, e alimentei minimamente o físico. Às 17 h, a médica brasileira acabou por chamar o meu nome, fez o diagnóstico, medicou-me logo e mandou-me embora com uma receita para aviar. Às 17:45 h voltei, finalmente, a ver a luz do dia. Conclui, então, que “tempo alvo” significa “tempo mínimo”. Estamos sempre a aprender.

Já não temos médicos portugueses para nos atenderem nas urgências. Estamos agora e pagar o resultado da contínua cedência à classe profissional que mais lutou pelo seu feudo. E que sempre o conseguiu. A contínua limitação das entradas para medicina, tinha que ter o seu preço e cá estamos nós a pagá-lo.
Começou a aumentar a procura da língua espanhola para os nossos jovens irem tirar o curso de medicina em Espanha. E os médicos portugueses têm os seus postos nos hospitais públicos em part-time e os seus lucros chorudos nos consultórios no outro meio tempo. A classe médica foi sempre muitíssimo favorecida. É a única que tem o seu emprego garantido no final do curso e a que tem aumento de ordenado se optar por trabalhar em regime de exclusividade. Algo que foi muitíssimo útil (não sei ainda assim é) para passar uma vida inteira a trabalhar no público e no privado e, a meia dúzia de anos do fim da carreira, pedir e exclusividade para garantir uma maior reforma.


Em 2004, a Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior sugeriu que o acesso a todos os cursos de Medicina e Medicina Dentária públicos fosse sujeito a uma prova nacional de acesso cujo peso na nota de candidatura ao ensino superior será de 50%. Depois de testada essa ideia foi, pura e simplesmente abandonada. Perguntei a um aluno meu que estava em medicina (depois de ter concluído o curso de enfermagem) o que pensava dessa prova “Concordo e acho que uma prova como essa devia existir para todos os cursos. Era uma garantia que entravam os melhores para a área específica a que se candidatavam. No entanto na experiência feita, a média nacional andou à volta de 7. Por uma questão de imagem não querem implementá-la. A média de acesso a Medicina passava a ser mais baixa do que muitos outros cursos. Eu acho que para o acesso a cursos da área da saúde era necessário, além de uma prova que testasse conhecimentos, a realização de provas, isentas e transparentes, que avaliassem as qualidades humanas do candidato. Não nos podemos esquecer que nestes cursos trabalhamos com pessoas. Pessoas que, ainda por cima, estão fragilizadas. É a saúde das pessoas que está em jogo.” Que bom seria se houvesse muitos médicos a pensar assim!

Os médicos são imprescindíveis mas Deus nos livre de precisar deles.

4 comentários:

mdsol disse...

Linda gp

Um dia, com mais tempo, conto-te os detalhes deuma história minha, real, em que, por motivos que agora não importa, estive na mesma noite na urgência de 2 hospitais. Como no primeiro já estava fechado o serviço que me poderia resolver o problema, para me facilitar a vida, fui pelos meus meios para a urgência do 2º hospital que teria esse serviço aberto. Pois bem... tinh apassado mais tempo... na 2º urgência o caso teve uma cor menos grave que na 1ª. Sabes a sorte? O caso, sendo de ir à urgência, não era grave...
beijinhos
:)

Graça Pimentel disse...

olá, mdsol!
Esta história foi completada com uma segunda ida à urgência do Centro de Saúde dois dias depois. Agora que parei com os medicamentos todos estou bem melhor...
Odisseias em urgências devem ser aos montes.

Beijinho

Gaivota Maria disse...

Vou poupá-la à história da minha ida ao Centro de saúde de urgência e ao cenário do mesmo. Contudo fui muito bem atendida. Por acaso a minha médica de família é quem me atendeu. Foi giro.

Abraço

Graça Pimentel disse...

gaovota maria
Quase todos têm uma históris deste tipo para contar.Se pudessemos recolher todos os casos anedóticos passados nas urgências e Centros de Saúde, teríamos um livro cómico-trágico.
Um dia conto aqui para que serve a minha médica de família. É de gritos...

Beijo